Preços do porco na China caem para mínimos de 16 anos devido a excesso de produção
Os preços do porco na China estão a aproximar-se de níveis mínimos não registados desde 2010, num contexto de excesso de produção no maior mercado mundial desta carne, agravando as pressões deflacionistas na economia do país.
Os preços dos suínos vivos prontos para abate atingiram hoje um novo mínimo de 9,59 yuan (cerca de 1,2 euro) por quilograma, segundo dados da consultora Shanghai JC Intelligence, situando-se abaixo dos custos de produção e no nível mais baixo dos últimos 16 anos.
Também os preços da carne de porco, um dos principais produtos da dieta chinesa, caíram para cerca de 22 yuan (2,7 euros) por quilograma, o valor mais baixo desde outubro de 2021, de acordo com dados oficiais divulgados esta semana.
A carne de porco é um produto essencial na China, tendo um peso significativo no índice de preços no consumidor, sendo por isso um indicador relevante numa economia onde o Presidente Xi Jinping tem sublinhado a necessidade de reforçar a autossuficiência alimentar.
Após anos de incentivos governamentais para aumentar a produção, que levaram à expansão do setor e à construção de grandes explorações, incluindo unidades de vários andares, as autoridades enfrentam agora excesso de oferta.
Apesar de alertas recentes do ministério da Agricultura e da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, que classificaram os preços como estando numa "zona de alerta" e anunciaram a compra de carne para as reservas estatais, os preços continuam a cair.
O Governo chinês intensificou, entretanto, os esforços para conter a produção, numa estratégia que acompanha medidas mais amplas para combater a deflação, num contexto de procura interna fraca e forte concorrência de preços em vários setores.
A volatilidade do setor acentuou-se nos últimos anos. Em 2018, um surto de peste suína africana levou ao abate de milhões de animais, o que motivou posteriormente políticas para aumentar rapidamente a produção. Mais recentemente, a orientação oficial voltou a inverter-se, com o novo plano quinquenal a prever um reforço do controlo da capacidade produtiva.
As autoridades estabeleceram como meta cerca de 39 milhões de porcas reprodutoras, um indicador-chave para o setor, mas os números têm permanecido acima desse nível, situando-se em 39,61 milhões no final do ano passado.
Grandes produtores, como a empresa chinesa Muyuan, estão sob pressão devido à descida dos preços. A empresa vendeu 4,6 milhões de suínos em fevereiro a um preço médio de 11,59 yuan (1,4 euro) por quilograma, menos 19% em termos homólogos.
Analistas alertam que a falta de dados atualizados sobre o número de porcas reprodutoras, cuja divulgação mensal foi suspensa, aumenta a incerteza no mercado, dificultando a avaliação do impacto das medidas governamentais.
Milhões de suínos foram abatidos na sequência de um surto de peste suína africana em 2018, o que levou o Governo a afirmar que aumentar a produção em 2019 constituía uma "grande tarefa política".
Vários setores na China, desde o café até aos veículos elétricos, sofrem cada vez mais de um processo designado "involução": uma concorrência excessiva a nível dos preços, que se insere num contexto mais alargado de pressões deflacionistas, incluindo uma fraca procura por parte dos consumidores.